Em 2012, a Fazenda do Paraizo, em Rio das Flores, completou cem anos nas mãos de uma mesma família. Produtiva e inteiramente preservada, esta jóia do século 19 manteve-se com as pinturas artísticas originais, os móveis luxuosos e a atmosfera de encanto.

O munic��pio tem nome poético, Rio das Flores. Fica no Vale do Café, como é conhecido o vale do rio Paraíba, na região sul-fluminense, a 170km do Rio de Janeiro, na divisa desse Estado com Minas Gerais, bem pr��ximo à cidade de Valença. Ali, a Fazenda do Para��zo se conserva intacta, poderosa e bela, desde que sua sede foi erguida pelo barão e depois Visconde do Rio Preto, entre 1845 e 1853. ���Nada aqui foi descaracterizado”, afirmam os atuais proprietários, o casal de administradores de empresas Simone e Paulo Roberto Belfort, cujo bisavô comprou da família do visconde em 1912.

A vocação produtiva inicial da fazenda mudou do café extinto na regi��o para o gado de leite e corte, mas a Paraizo se mantém inteira, inclusive o casarão de mais de 2.200 m2, onde eles moram e recebem visitantes. Símbolo mais do que autêntico da riqueza agr��cola do século 19, já que é absolutamente preservada, a sede têm, em seus dois andares, 58 cômodos e 99 janelas, além de características próprias. “Há cantaria nas calçadas, nas esquadrias das portas, nas esquadrias das janelas e nos rodapés. Internamente, suas paredes são cobertas de pinturas artísticas que utilizaram as técnicas faux-marbre e trompe-Poeil. A primeira imita o mármore e a segunda, ilusionista, a sensação de relevos”, ressalta Tasso Fragoso Pires no texto do livro Fazendas do Império (Edição Fadel, 312 págs., 2010), com fotos de Cristiano Mascaro.

Da porta para dentro, além da própria constru����o majestosa, tudo é original e demonstra a riqueza da época: do mobiliário francês e brasileiro de qualidade aos lustres de cristal, dos papéis de parede diferentes entre si, de acordo com o ambiente, ás pinturas com motivos diversos nas paredes sesquicenten��rias nunca restauradas. “Tudo é ainda do século 19. Fomos nós que nos adaptamos à casa ao virmos morar aqui”, orgulha-se Simone, ligada à internet e aos satélites que trazem e levam informaç��es, enquanto aponta as altíssimas palmeiras-imperiais que fazem fila na alameda de entrada.

A casa é dividida em quatro alas, das quais três permanecem abertas à visitação pública. A exce��ão é a ala íntima, composta de dez quartos e apenas um banheiro, que abriga a família de proprietários, composta do casal e seus quatros filhos. Na ala comercial, Domingos Custódio Guimarães – Visconde de Rio Preto – trabalhava em seu gabinete, precedido pelas salas de espera destinadas a quem vinha até ali para negociar o café, com direito a retratos a óleo de D. Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina. Essa ala térrea tinha, e ainda tem, seis alcovas (quartos simples, sem janelas) onde os comerciantes de fora pernoitavam. Nesse mesmo piso, fica a ala de serviço, composta de despensa, dos quartos de engomar e de costura e da grande copa-cozinha, onde os moradores fazem suas refeições, preparadas por seu Joaquim, cozinheiro da casa há 50 anos, no fogão a lenha escocês.

Subindo as escadas, depois de atravessar o hall de entrada, com seus ladrilhos hidráulicos no piso e estátuas de núbios de bronze, vindas da França, que apóiam luminárias (a casa foi a primeira no Brasil a ter iluminação a gás, de carbureto), encontra-se a ala social. É formada por um novo hall e as salas de estar, entre elas, as curiosas “sala das mulheres”, localizada na sacada, e a “sala dos homens���, onde se organizam as armas, assim como o sal������o de banquetes.

A igreja, situada dentro da casa e com pé-direito duplo, tem toques arquitetônicos bizantinos e �� dedicada à padroeira Nossa Senhora da Conceição, que recebe um santo a cada lado do altar: São Domingos e Nossa Senhora das Dores, em homenagem ao visconde e sua mulher, Maria das Dores. O engenho �� um caso à parte. Nele, beneficiava-se o café vindo de um dos quatro terreiros – dois com piso de pedra e dois de terra batida -, em uma máquina norte-americana que veio substituir a mão de obra escrava, de onde saía pronto para ser ensacado. Hoje, em um dos terreiros, existe um pomar onde reinam a jabuticabeira, o abieiro e a goiabeira. A Fazenda do Paraizo segue assim sua história, “como uma fazenda de negócios���, como conclui Paulo Roberto.

Fonte: REVISTA CASA VOGUE | por: SÉRGIO ZOBARAN